Vidoiro I

Standard

Adorei a proposta de Ramiro para escrever um poema ao fio da última peça publicada polo Neno escuro. Conhecim o Rafa nos anos 80, aos nossos 16 ou 17 anos; já daquela andava metido em bandas e já daquela tinha a bondade escrita no rosto.

Gostei muito de Vidoiro porque me conduziu polo mesmo percurso que ultimanente costumo sentir ao visitar espaços similares: penso em toda a gente que nalgum momento os habitou, os sentiu seus, se sentiu deles; a gente que padeceu e morreu nesses lugares que no entanto, continuam a servir-nos para intuir o que pode ser a paz.

Decidim escrever un poema sobre a HISTÓRIA, com maiúsculas porque é a que nos conecta com todas as pessoas de todos os tempos passados e os por vir.

Sentim a nossa condição de accidente e a nossa imensidade, por isso quigem escrever um poema breve, com a estrutura máis simples, com palavras seleccionadas entre as 100 máis comuns. O ritmo tamém é simples e uniforme. O ritmo é uma dessas poucas cousas que nos fão humanos e que está, e tem estado, presente tanto na celebração como na guerra, tanto no traballo em equipa como no coração de cada pessoa, por isso é tamém simples e uniforme no poema.

Sobre a minha interpretação da história, creo que nada me resta por engadir ao próprio poema, para isso precisamente o escrevim.

Proponho-vos que vejades o vídeo primeiro. A continuação tedes HISTÓRIA, ao carão das colaborações de Alfredo Ferreiro, Ramiro Torres e Ramón Neto. É toda uma honra partilhar espaço poético com eles.

Ojalá gostedes.

ALFREDO FERREIRO

VIDOIRO

Como o mar e a terra se abraçam
assim no monte a névoa e as pedras.
Ela cavalga sobre o seu lombo,
elas discorrem sob o seu ventre,
ela penetra nas suas fendas,
elas banham-se no seu leite.
É uma pausada procela
que caminha sobre um
assobio que dança,
é a existência no primórdio,
é o que acontece após o fim.

Arteijo, 28/I/2016. Baseado no vídeo do mesmo título de Neno Escuro.

TATI MANCEBO

HISTÓRIA

Atrás cantavam
Atrás sabiam
Atrás dançavam
Atrás queriam

Atrás chegavam
Atrás viviam
Atrás marchavam
Atrás volviam

RAMIRO TORRES

VIDOIRO

Para o Rafa, sempre a caminhar.

Ardem os signos na
irrigação do invisível
entre os sons da luz,
transportados para
a absoluta consumação
onde se entranha o saber:
imóveis no obscuro,
abrimos os olhos sob
a espuma do tempo,
embriagada a percepção
com animais dormidos
a arfar desde o fundo,
viageiros na estranheza
do vivo a florir no uno.

Janeiro de 2016.

RAMÓN NETO

Vidoiro (negativo)

Canto maior a intensidade luminosa
maior é o escurecemento dos sales de prata.

Inversión tonal. Onde premen
as polpas medran pálpebras.

Enfoque e nervio nunha mesma uva
dilatan o ventre da rocha.

Lágrima. Nada máis que
irritación na córnea a causa do ar frío.

Alguén despeza o seu
escafandro no círculo glaciar.

Descenso en apnea no ollo de boi.

Son as zonas que apenas reflicten a luz
as que se acaban transformando
nas partes claras ou transparentes da emulsión.